FONTE: IVAN DE CARVALHO (TRIBUNA DA BAHIA).
Vamos comemorar o início de um novo ano com duas grandes crises em curso no mundo. E outras aparentemente menores, mas que eventualmente podem evoluir para fatos muito mais graves.
De uma das crises – a que atinge as finanças e a economia mundiais, com conseqüências que deverão se fazer sentir mais agudamente no ano a ser iniciado à zero hora (quando esse a perderá sua crase, graças à idéia meio estapafúrdia de se construir um idioma por tratado apelidado de “acordo ortográfico”, que já é o segundo do tipo para o português) – muito se tem falado e escrito há vários meses.
Da outra, muito se tem falado e escrito há várias décadas. Refiro-me à crise entre Israel e os palestinos, que envolve não só a estes, mas também a vários países árabes e a alguns que, não sendo árabes, são muçulmanos e engajados no esforço de “varrer Israel do mapa”, entre os quais destaca-se o Irã e destacava-se também o Iraque antes da ocupação americana que pôs fim ao tenebroso regime de Saddam Hussein.
Ao contrário da crise econômica e financeira mundiais, que não se sabe quando vai acabar, mas cujo fim, seguido de uma recuperação, é previsível na pior das hipóteses em poucos anos, a crise entre israelenses e seus inimigos tem assumido desde 1948, quando o Estado de Israel foi criado (recriado, depois de 1878 anos de Diáspora) em Assembléia Geral da ONU, numa resposta mais do que justa ao Holocausto perpetrado pelo nazismo, não tem marcada no tempo previsão de um desfecho.
No momento, vive-se nas antigas terras bíblicas apenas mais um episódio de um série. Antes da própria criação de Israel em 1948, na Assembléia Geral da ONU presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, já havia uma milícia israelense lutando pela independência de um estado hebreu, pois a Palestina fora posta pela Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial, sob mandato britânico, como previra no Antigo Testamento o profeta Isaías: “As ilhas te guardarão”.
Criado pela ONU o Estado de Israel, então bem menor do que é atualmente, os países árabes se aliaram e atacaram para varrer do mapa o chamado “estado judeu”. Quase inacreditavelmente, foram derrotados e Israel conseguiu ampliar seu território, não chegando, porém, a incorporar a Cisjordânia, que fazia parte do Israel histórico e bíblico, onde constituía as províncias da Judéia e da Samaria.
Passou o tempo e em 1967, sob a liderança egípcia de Gamal Abdel Nasser, o Egito, a Jordânia e a Síria montaram uma operação militar contra Israel. E houve a Guerra dos Seis Dias, na qual, surpreendendo totalmente o inimigo, Israel o derrotou com a maior facilidade, aproveitando para “anexar” a seu território a Cisjordânia (à margem direita do Rio Jordão e que era controlada pela Jordânia e habitada densamente pelos palestinos árabes) e a antiga Jerusalém, capital do Israel histórico e que hoje constitui a chamada “parte leste” de Jerusalém, além de ocupar a Faixa de Gaza e o deserto do Sinai, incluindo a margem direita do Canal de Suez.
A réplica árabe-muçulmana veio em 1973, quando, no dia do “Dia do Perdão” dos israelitas, o Egito atacou em aliança com a Síria e a Jordânia, mas esta só formalmente, pois sabia que seu ingresso de fato nas hostilidades lhe seria devastador. Novamente Israel venceu, mas sob pressão da União Soviética, que os Estados Unidos entenderam que não podiam ou não deviam neutralizar, fez-se um acordo em que Israel retirou-se para uns poucos quilômetros da margem do Canal de Suez, retirando suas tropas que entraram no Egito e sitiaram a principal unidade do Exército deste país. Foi nesta crise que aconteceu a primeira grande crise do petróleo, com o boicote árabe às exportações para o Ocidente. Entre Síria e Israel quase nada se alterou (houve o ataque sírio, mas não prevaleceu), e a Jordânia foi preservada por Israel. Tempos depois, Anwar Sadat, do Egito e Menahem Begin, de Israel, fizeram um acordo de paz entre os dois países e Israel devolveu o deserto do Sinai e a Faixa de Gaza ao Egito. É na Faixa de Gaza, que hoje faz parte, oficialmente, do território controlado pela Autoridade Nacional Palestina, mas na prática está sob controle dos terroristas do Hamas, que se desenvolvem no momento as operações militares de Israel. E outros crises atingirão a região depois desta, algumas de amplitude e intensidade muito maior.
“Não haverá paz”, avisou o profeta Isaías.